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Opinião - Linguagem
A face linguística das relações de poder


As relações de poder manifestam-se de diversas maneiras. Logo também por códigos linguísticos específicos. Se alguns desses códigos são subtis, quase imperceptíveis, outros são mais explícitos e outros ainda quase se comportam como mensagens subliminares.

1. Subtilezas

Existe um vínculo subtil que une o eixo do 'mais poder -> menos poder' ao eixo do 'dialecto mais prestigiado -> dialecto menos prestigiado'. Senão vejamos:

i. O dialecto falado na capital política de um país apresenta-se, geralmente, como padrão linguístico desse país. Esse facto, por si só, não me parece ser problemático: é necessário escolher um. Já a depreciação dos restantes dialectos, vista a esta luz, não pode deixar de ser entendida senão como uma mera manifestação de um abuso de poder preconceituoso e ignorante.

ii. O dialecto falado na capital política de um país apresenta-se, geralmente, como segunda língua de todos os profissionais da rádio, da televisão e das artes faladas, como a canção, o teatro ou o cinema. Pode haver casos em que tal se justifica, dada a necessidade de assegurar um referencial de identidade e intercompreensão. Mas na maior parte dos casos, plasmar o seu próprio dialecto a partir do dialecto-padrão corresponde à abdicação do próprio direito à identidade.

iii. Seguindo ainda a mesma linha de raciocínio, registe-se que para muitos dos candidatos a políticos ou pró-políticos, como gestores públicos, causídicos de nomeada, famosos intelectuais ou quem quer que seja que deseje destacar-se socialmente, a exibição do seu dialecto materno é liminarmente rejeitada. A assunção pública de um modo de falar não-prestigiado exige um sólido grau de auto-confiança, pelo que o risco de empobrecimento linguístico do país é evidente. É sobre esse risco que fala a canção dos GNR, Pronúncia do Norte, cantada por Rui Reininho e Isabel Silvestre:

Há um prenúncio de morte
Lá do fundo de onde eu venho
Os antigos chamam-lhe relho
Novos-ricos são má sorte

É a pronúncia do norte
Os tontos chamam-lhe torpe

Hemisfério fraco, outro forte
Meio-dia não sejas triste
A bússola não sei de existe
E o plano talvez aborte

Nem guerra, bairro ou corte
É a pronúncia do norte
É um prenúncio de morte
Corre o rio para o mar

Não tenho barqueiro, nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar
Tolheste os ramos onde pousavam
Da geada às pérolas, as fontes secaram

Corre um rio para o mar
E há um prenúncio de morte

E as teias que vidram nas janelas
Esperam um barco parecido com elas
Não tenho barqueiro, nem hei-de remar
Procuro caminhos novos para andar

E é a pronúncia do norte
Corre o rio para o mar

Existe também um vínculo subtil entre poder político e linguagem. Em países como Portugal, cuja unidade linguística é quase absoluta, a questão não se coloca, mas há casos em que o problema é mais sério. Vejamos alguns dos que nos estão mais próximos:

i. A Espanha é, actualmente, uma união política de diversas autonomias. Cada região autónoma, e em particular a Galiza e a Catalunha, são detentoras de línguas distintas do Castelhano. A estipulação do Castelhano como língua nacional, a possibilidade de uso em público do Galego, do Catalão ou de outras línguas regionais, e a escolarização destas línguas fazem parte da actual realidade espanhola, mas nem sempre foi assim: durante a ditadura franquista, por exemplo, só o castelhano podia ser utilizado em público e só essa língua era ensinada nas escolas.

ii. O País Basco, politicamente partilhado por Espanha e França, faz do uso da sua língua, o Basco, uma bandeira de união, resistência e sobrevivência. O Basco é uma das poucas línguas da Europa que não pertence à matriz indo-europeia e, consequentemente, é linguisticamente muito distinto quer do Castelhano, quer do Francês.

iii. Em Timor-Leste, durante a ocupação indonésia, o Português teve, como é sabido, uma função de sustentáculo da resistência, nomeadamente através do seu uso na liturgia católica.

2. Tu, você e o Senhor Engenheiro

O registo linguístico em que dois interlocutores se colocam pode, igualmente, emanar da posição hierárquica em que mutuamente se colocam e tacitamente aceitam. Entre iguais, qualquer que seja o grau de escolaridade, a idade, o sexo, o tipo de relação pessoal ou mesmo a situação de locução, o registo pode ser informal, pode fazer uso de um léxico mais rude e de formas de tratamento que indiciam maior proximidade. Quando a relação que se estabelece entre os diversos interlocutores é uma relação de superioridade/ inferioridade, a liberdade de escolha do registo linguístico fica limitada, tende a tornar-se mais formal, mais distante e mais restrita: os homens não falam com as mulheres do mesmo modo que falam entre si, os mais novos não falam com os mais velhos como falam uns com os outros, o que é dito e como é dito entre irmãos não é dito do mesmo modo aos pais, chefes e chefiados controlam o seu uso da língua quando interagem verbalmente.
Note-se que nesta relação desigual, o grau de formalismo, de distância e de interdição é determinado por quem tem mais poder. Veja-se, por exemplo, o que sucede com a adopção de uma forma de tratamento. As formas de tratamento são:

"Um recurso da língua […] de natureza formal, com a função discursiva de regular eficazmente as faces do locutor e do interlocutor, com vista a obviar obstáculos e rupturas na comunicação-interacção."

In Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário, Ministério da Educação, Lisboa, 2002.

Há línguas em que as formas de tratamento constituem um sistema complexo. O Português é uma delas. Tipicamente, uma situação de interacção verbal envolve um locutor e um interlocutor, que alternadamente trocam de posição. O modo como se interpelam obedece a um conjunto de princípios, que passa também pela relação de poder que os une. A forma verbal utilizada neste tipo de discurso é habitualmente a da segunda pessoa, mas, no Português, a segunda pessoa tem diversas realizações formais:
 Tu queres …               Vós quereis …
 Você quer …               Vocês querem …
 A menina quer …          As meninas querem …

Ainda que todos estes enunciados linguísticos sejam caracterizáveis como fazendo uso da segunda pessoa, as formas verbais utilizadas variam: tu e você usam a forma verbal da segunda pessoa (exs. queres, quereis), mas nos restantes enunciados as formas verbais usadas (exs. quer, querem) são cunhadas supletivamente a partir da terceira pessoa (cf. ele quer, eles querem). O recurso à forma verbal da terceira pessoa, que, por definição, é a pessoa ausente da situação de interacção verbal, no singular cria distância e no plural tende a substituir integralmente a forma canónica. Assim, o tratamento por tu é mais próximo e menos formal, enquanto o tratamento por você é mais distante e mais formal; no dialecto de Lisboa, o tratamento por vós não é utilizado, sendo reconhecido como antigo ou próprio de um outro dialecto ou sociolecto.

A marcação do grau de formalidade não se esgota na oposição entre tu e você, já que o Português faz largo uso de expressões nominais classificadoras do interlocutor. Se tu é a forma de tratamento que exibe maior grau de proximidade entre o locutor e o interlocutor, você é a opção intermédia e tratamentos do tipo Senhor Engenheiro são aqueles que codificam a relação mais distante. No plural, a escolha fica limitada a estas duas últimas possibilidades, daí que o tratamento por vocês assuma o papel semântico de tratamento mais próximo.

As expressões nominais classificadoras do interlocutor podem ser de muito diversa ordem, das relações familiares (exs. Tia Alice, Prima Teresa) à expressão dos afectos, frequentemente reforçada pela presença de um possessivo (exs. Amigo João, Minha Querida Lúcia), do reconhecimento do grau académico (exs. Mestre António Pereira, Professor Doutor Sebastião Araújo), à expressão de um título profissional (exs. Arquitecto Brás de Almeida, Engenheiro Costa Dias, Juíza Teresa Antunes), que popularizou de forma arrasadora o título académico de Doutor/ Doutora atribuindo-o à generalidade dos licenciados, ou da identificação de um título nobiliárquico (exs. Visconde de Paredes, Rainha de Inglaterra) a uma mera expressão de respeito (exs. Dona Isabel, Senhor Henrique). Sem esquecer as expressões que identificam cargos de poder, quer se trate do poder temporal (exs. Ministro Manuel da Silva Gonçalves, Presidente Santos Queirós), quer do espiritual (exs. Padre Videira, Senhor Bispo António Rodrigues).

3. Fêmeas, varões e nem uns, nem outros

A última relação entre poder e expressão linguística de que hoje quero falar diz respeito ao género. Género é uma categoria gramatical, tal como número ou tempo, para citar apenas alguns exemplos. Servem estas categorias, em geral, para codificar informação e também para tornar visíveis, através de um mecanismo a que se dá o nome de concordância, algumas relações gramaticais.
A sua presença num dado sistema linguístico pode ser muito diversa da sua presença noutro. No Português, a categoria gramatical de género é uma categoria problemática, por várias razões:

i. Todos os nomes possuem um valor de género, masculino ou feminino, mas, frequentemente, essa propriedade gramatical não veicula nenhum significado. É o que se passa com nomes como livro, bola ou pares como chinelo e chinela.
O sistema de género do Português, próximo do Castelhano, do Francês, do Italiano, do Inglês ou do Alemão, é herdeiro do sistema da matriz indo-europeia. Este era um sistema de base semântica, que estabelecia uma tripartição das entidades nomeáveis e a cada tipo atribuía um diferente valor de género:

                           fêmeas      género feminino
           animados 
seres                    machos      género masculino

           inanimados                  género neutro

Na passagem do Latim ao Português e às restantes línguas românicas, o neutro ('nem um, nem outro', na sua acepção original) desapareceu, pelo que os nomes que, em Latim, tinham esse valor de género tiveram de integrar-se no conjunto dos nomes femininos (cf. cor) ou no conjunto dos nomes masculinos (cf. mar) e a base semântica do sistema de género ficou seriamente danificada.

ii. Associada a essa perturbação diacrónica vem uma outra que tende a associar as palavras terminadas em -a ao género feminino e as palavras terminadas em -o ao género masculino. Sabe-se que há algumas excepções, registando-se umas poucas palavras femininas terminadas em -o (exs. tribo, modelo) e bastantes mais palavras masculinas terminadas em -a (exs. mapa, poema). Esta constatação parece sugerir que o primitivo sistema de género de base semântica é substituído, no Português, por um sistema formal, com o valor de género dependente de um contraste fonético no final da palavra e de um conjunto finito de excepções. A realidade é, porém, diferente: ainda que as palavras terminadas em -o ou em -a sejam muito numerosas, há muitas palavras com outras terminações e que, naturalmente, vão ter género masculino ou feminino sem que a posse desse valor de género seja previsível (cf. filme, animal, calor, país, café, pajem vs lente, cal, flor, íris, pá, imagem).

iii. Por outro lado, no universo dos nomes que referem entidades animadas nem sempre existe coincidência entre o valor do género gramatical e o sexo da entidade referida. Mulherão, por exemplo, é um nome masculino embora a sua referência semântica seja feminina. Inversamente, águia-macho tem género feminino e referência masculina. Acresce ainda que algumas palavras de género feminino referem quer entidades de sexo masculino, quer entidades de sexo feminino (ex. testemunha, criança) e o mesmo se passa com alguns nomes masculinos (ex. cônjuge, ídolo).

iv. Por último, dado que no sistema de género do Português só existem dois valores (i.e. feminino e masculino), sempre que a referência semântica inclui um conjunto de entidades de sexo feminino e de sexo masculino, torna-se necessário seleccionar um dos valores como valor não-marcado, ou seja, como valor que possui uma capacidade de referência genérica. No Português, o valor de género que detém essa capacidade é o masculino. Assim, a concordância sintáctica, por exemplo, seleccionará sempre o valor masculino mesmo que a entidade que desencadeia essa concordância seja predominantemente, mas não exclusivamente, feminina:

As dez candidatas e o seu ursinho de estimação foram contratados por uma agência publicitária

O mesmo se verifica sempre que um determinado nome deve referir uma entidade, independentemente do seu sexo: a expressão 'número do beneficiário', num qualquer formulário deverá ser entendida como contendo uma referência quer aos beneficiários homens, quer aos beneficiários mulheres. Pelo contrário, a expressão 'número de beneficiária' só pode ser interpretada como contendo referência exclusiva aos beneficiários mulheres.

Em suma, a economia do sistema linguístico do Português conduziu, no que diz respeito à categoria de género, a uma perda do seu conteúdo semântico. Mas ainda subsiste alguma memória do sistema anterior, pelo que a identificação entre género masculino e sexo masculino, por um lado, e género feminino e sexo feminino continua a estar presente na consciência linguística dos falantes desta língua. E assim sendo, nasce lugar para a interrogação acerca da atribuição de valor não-marcado ao género masculino. A resposta, porém, não cabe à linguística.

ALINA VILLALVA 
Professora de Linguística - Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa

 

 Alina Villalva




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